Artigo: Sobre Tortas e Mega Drives

Sobre Tortas e Mega Drives

Povao9

Fim da BGS, início de tudo…

Década de 90…

Não consigo precisar a época do ano, tão pouco o dia ou a hora. Lembro-me apenas de que estava jogando futebol na saudosa escolinha da UFRJ na Praia Vermelha, Rio de Janeiro, uma bela tarde de sol.

Um amigo sentou-se ao meu lado no banco de pedra onde tirávamos as chuteiras e entre uma golada e outra na garrafa de refrigerante ele me perguntou algo que jamais esquecerei, apesar de não lembrar o nome dele.

“Tá a fim de comprar um Mega Drive por cem Reais?”

Não tinha noção se era caro ou barato, a única coisa que conhecia até então foi um Atari 2600 e posteriormente um Memory Game da Milmar que nada mais era do que um clone do próprio Atari.

– Não tenho certeza se quero… – Disse sem muito entusiasmo querendo mudar de assunto ou ir para casa jogar o Pacman.

– Faz o seguinte – Retrucou abrindo a mochila e me dando um saco plástico – Leva ele e me trás no próximo dia de aula, se tu gostar você me paga.

Como recusar algo tão tentador? Um vídeo game inédito, sem custos, por dois dias! Ganhei na loteria.

Abri o saco plástico com tanto cuidado quanto um demônio da tasmânia, o cabo estava um pouco ruim e isso não foi problema, na mesma hora fui para a rua arrumar um novo, não poderia esperar mais. Apesar da pressa, não esperava mais do que um NES estilo clone como tantos outros, embora gostasse de jogar alguns jogos, nenhum deles me prendia a atenção por mais do que uma hora no máximo.

Sentei no chão mesmo com a minha irmã e segurei meu novo filho no colo, um Mega Drive III com o cartucho do Sonic 2, três controles – dois de seis botões e um da primeira versão de apenas três – A quantidade de botões me assustou na hora, mas não me intimidei diante daquela máquina, ao contrário do meu pai que limitou-se a dizer “Isso tem botões demais pra mim, cadê o Atari?”.

Amor à primeira vista, suas linhas arrojadas encheram os meus olhos de uma paixão avassaladora. Ao Colocar o primeiro cartucho, foi como se um novo mundo se abrisse para mim. Ainda não conhecia nada sobre a Sega, tudo que já tinha visto era o Master System algumas poucas vezes na casa do meu primo, porém, apesar de não conhecer ainda aquela magnífica campanha comercial do início dos anos noventa, foi como se eu escutasse em meus ouvidos.

Bem vindo à próxima fase.

A era de ouro do vídeo game!!! Pelo menos na minha casa…

tortas2

Porradaria no sofá de casa!

Apesar de ter como incontestável na minha vida o meu amor pelo Sonic 2, o primeiro jogo de Mega Drive que eu joguei foi Ultimate Mortal Kombat 3. Um dia de glória na minha casa, combates homéricos com a minha irmã me davam a sensação de estar disputando o controle do reino da terra a cada partida. Então no mesmo dia jogamos MK2 e o dificílimo jogo do Sonic 2. Era muito melhor do que o Atari ou os clones de NES. A partir desse ponto me interessei realmente por vídeo games – Falar sobre eles, alugar jogos, conhecer amigos com o mesmo vídeo game para trocarmos cartuchos e não é só isso! Descobri que grande parte da minha rua tinha o SNES e eu tinha o único Mega Drive da rua, logo, todos nós que éramos limitados a jogar em apenas uma plataforma por não termos recursos para ter as duas (Nem todos somos o Batman como nosso amigo Diego Ferreira), começamos a visitar um a casa do outro, assim pude jogar de tudo um pouco (Infelizmente, conheci Yoshi Island nessa época).

Super Mônaco GP, Carmen Sandiego e seu luxuoso manual, International Super Star Soccer Deluxe, Super Hang on, Shinobi, Streets of Rage, Golden Axe, Duke Nukem, Sonic, X-men 2: Clone Wars, Comix Zone… Tantos e tantos títulos eu joguei no meu querido Mega Drive, porém, uma ameaça balançou minhas emoções naquela época, joguei um maravilhoso jogo de luta chamado Marvel Super Heroes no fliperama ao lado da minha casa e perguntei inocentemente.

– Qual é a plataforma desse jogo? Não me parece 16 bits.

O dono do fliperama levantou seus olhos por cima dos óculos e me apresentou o novo amor da minha vida.

– Esse jogo tem para o Playstation.

Mais de 15 anos

“Só te dou um Playstation se você repassar o seu Mega Drive para os seus primos.”

A frase do meu pai teve um efeito imperativo sobre mim, mas assim como um homem se vê fascinado por uma nova mulher, eu não hesitei em aceitar o acordo. No ano de 1999 o meu Mega Drive partiu para o nordeste do país enquanto eu me deliciava jogando Marvel Super Heroes dentro de casa. Sinto um carinho grande pelo meu Playstation, o modelo tijolinho, assim como sinto carinho pelo PS2, PS3, X-BOX 360 e meu mais novo amigo, o PS4.

Mas com o passar dos anos eu comecei a sentir saudades do meu grande amor, por muito tempo pensei em resgatá-lo novamente para a minha casa, mas vontade é uma coisa que dá e passa.

Porém, nesse ano de 2015 eu pude vê-lo novamente atrás de uma vidraça, me dei conta que por mais de 15 anos eu não havia sequer visto um Mega Drive na minha frente, senti uma vontade louca de tocá-lo, de ver novamente o logo da Sega imponente e austero. Entreguei-me enfim.

Não poderia gastar rios de dinheiro em algo assim, então comprei um Mega Drive usado, sem a caixa original, porém muito bem cuidado. Meus colegas riram quando viram que, apesar de muito esmero do vendedor, o vídeo game estava em uma caixa de torta. Foi engraçado, porém eu enxerguei que essa caixa era realmente apropriada. Sentei-me novamente no chão e liguei o vídeo game da minha vida mais uma vez.

Assim como uma bela torta, um sabor inesquecível…

tortas3

Sonic 2 depois de 15 anos. E com direito a TV de tubo!!!!

Artigo: Console Wars na Intimidade

Caros amigos Nintendistas, irmãos Segamaníacos… Durante anos nos digladiamos em um campo de batalha coberto por pedaços de cogumelos, uniformes de encanadores e de pelo azul de ouriço. Uma batalha interminável e sobre a seguinte questão – Qual o melhor console de 16 bits da face da terra?

CW1“Sonic claramente reduzindo a velocidade para esperar o Mario.”

Mega Drive ou SNES? Yin ou Yang? Jedi ou Sith? A verdade é que assim como as analogias citadas, é impossível pensar em um sem pensar no outro, dois rivais que cultuaram as nossas mentes desde nossa infância e até hoje não tem igual no mundo gamer. Mas o que levou a tudo isso?

Apesar de saber a história por alto, sempre tive vontade de saber os bastidores por trás dessa guerra. O que levou as empresas ao ponto de lutarem em campo aberto e agressivamente? O que levou a Sega a superar a Nintendo no mercado americano em três anos e praticamente sair do mercado em cinco?

Em meados do ano de 2014, meu amigo e editor do Gamer Como a Gente, Diego Ferreira me mostrou um livro, ainda em inglês, que poderia me solucionar todas as dúvidas. Trata-se do livro Console Wars escrito por Blake J. Harris. O livro foi baseado nos depoimentos de ex-funcionários da Sega e da Nintendo e conta toda a história desta guerra pela visão de ambas as empresas. Sou um cara antigo, não li o livro em inglês por estar tentando importar o livro em papel, fazer o que… Não gosto de ler no tablet… Para minha sorte, o livro foi traduzido e publicado no Brasil pela editora Intrínseca. Gamer Como a Gente também se dedica a leitura, vamos analisar a obra de um jeito bem gamer

Jogabilidade

CW2“Capa nacional do livro Console Wars.”

Foi um belo trabalho de tradução e diagramação feito pela editora Intrínseca. A edição nacional ficou bem bonita e semelhante à edição americana. Para você que gosta de fotos antigas, o livro está recheado delas. A única reclamação que tenho é que essas fotos bacanas não foram colocadas inteligentemente ao longo do livro e sim no meio dele, com um papel de qualidade diferente do restante da impressão (embora melhor, devo salientar). Deu um aspecto diferente, mas perceptível apenas para loucos que gostam de simetria (como eu, por exemplo).

A escolha de colocar todas as fotos no centro também tem um ponto negativo no que tange a narrativa, você tem vários spoilers do livro nas fotos. (exagero! Só vi um na verdade). Para os que gostam de originalidade, a capa nacional foi alterada em relação à capa original, mas eu particularmente gosto mais da edição nacional que a original. Com certeza o gamer brasileiro vai se deliciar “jogando” este livro, letras grandes e tamanho razoável. Li ele todo no busão!

Gráficos

Muito interessante o processo de criação do Blake J. Harris para trazer este livro ao público. Por mais ou menos três anos ele entrevistou grandes nomes da indústria como: Tom Kalinske  (Ex-CEO da Sega of America e o homem que mudou a cara da indústria gamer no início da década de 90); e Howard Lincoln, o homem responsável pela política restritiva da Nintendo e que posteriormente se tornou o CEO da Nintendo of America. Além de outros personagens importantes na história das empresas descritos por mais de 200 funcionários. Um bom jogo deve ter gráficos decentes para funcionar, e Harris soube desenvolver a engine da história.

Enredo

Após o crash da indústria de games no início dos anos 80, uma empresa japonesa tenta emplacar seus arcades em território americano, após o sucesso desta empreitada, ela decide lançar o seu console doméstico de grande sucesso no Japão, assim, a Nintendo começa a construir o seu império que chegou a ocupar 90% do mercado americano.

CW3“O arcade que salvou a Nintendo.”

Visando uma fatia do revigorado mercado emergente dos games, o CEO da Sega do Japão, Hayao Nakayama, viaja até os Estados Unidos a procura de alguém que possa liderar a pequena empresa contra o quase monopólio nintendista. Nakayama vai atrás de Tom Kalinske, que acabara de sair da Mattel. O japonês arruinou as férias de Kalinske, mas seu nome entrou para a história como o homem que virou a indústria do avesso e destronou com o Sega Genesis a poderosa Nintendo nos EUA. Pelo menos até o surgimento de uma ameaça maior…

CW4“Blast processing na sua cara!!”

Toda a narrativa do livro gira na visão de personagens chave na história das duas empresas, o tom sempre mais conservador do lado nintendista contrasta com a política liberal e jovial do lado da Sega. O David tentando derrubar o Golias é o enfoque do livro e nos ajuda a perceber como a Sega e sua política agressiva de marketing conseguiu pular de 5% para 55% do mercado de games em apenas 3 anos. Nos mostra também como a Nintendo, mesmo sobre fogo cerrado, não abriu mão de sua ideologia nem mesmo à custa de perder market share.

Esse pano de fundo nos trás deliciosas histórias sobre a indústria dos games, a criação do Sonic, os problemas para definir o nome de Milles “Tails” Prower, a produção do infame filme dos irmão Mario (Urgh!), problemas com o governo americano por conta da classificação etária dos jogos e os erros de ambas as empresas que culminou na chegada ao mercado do Sony Playstation (confiram um pouco dessa história aqui).

CW5“Sonic 2sday. Um dos dias mais importantes da minha vida gamer!”

Uma história que criou uma rivalidade eterna, um ícone da envergadura do Sonic, capaz de encarar Mario de frente. Uma história que mostra que é impossível se manter no topo sem que a empresa esteja trabalhando em uníssono, seja no caso da Nintendo e sua pouca flexibilidade para mudar na hora certa, seja a Sega que tinha como maior inimigo a sua briga interna.

CW6“Donkey Kong Country. Marco na mudança de postura comercial da Nintendo.”

Som

Cast002-VitrineConsoleWars

Obviamente um livro não tem som. Ou será que tem? Discutimos um pouco dessa rivalidade em tom de nostalgia no nosso segundo podcast, Console Wars. Um sentimento que permanece indelével em nossos corações gamers. Nunca mais haverá uma guerra como esta.

Conclusão

Um enredo de nos tirar sorrisos pelas soluções inteligentes, soluços com histórias de superação de obstáculos e uma boa parte de ódio pelas péssimas decisões tomadas. Gamer Como a Gente recomenda!!

Artigo: O que define um rival valoroso?

SadMario

O grande rival é aquele que, apesar do antagonismo em um mesmo propósito, te faz crescer e se superar para manter-se a frente dele ou superá-lo em algum momento. O grande rival é aquele que se sente triste pelo seu infortúnio por sentir que aquele que era seu igual se perdeu, como um par de jarros gêmeos onde um deles se quebra por descuido.

Satoru Iwata teve o grande desafio de substituir o lendário presidente da Nintendo Hiroshi Yamauchi, que esteve à frente da empresa durante a “era de ouro” dos 16 bits, retratado no nosso podcast número 2 (Console Wars). Teve seus pontos de vista como CEO, alguns contestados, porém não seguiu o caminho do seu rival de outrora, sempre mantendo a sua visão romântica do que um vídeo game deve ser – o jeito Nintendo de oferecer diversão.

Particularmente não gosto do “jeito Nintendo”, mas respeito a sua visão. Manter a identidade da empresa mesmo que isso signifique ir contra o mercado atual. Pode ser uma visão ultrapassada, mas foi o que faltou ao seu rival que hoje é o jarro gêmeo trincado no alto da prateleira.

Grande trajetória, amor pelo que se faz e fé nos seus objetivos. É o que Iwata deixa nesse mundo.

Vá em paz, seu rival lhe saúda.

SonicSalute

Esse é o futuro dos games?

Amigos Gamers! Mais uma notícia sobre a Konami. Depois de toda a movimentação da saída do Kojima, a saída da bolsa de valores de Nova York e com o fim do ano fiscal da empresa, o novo CEO, Hideki Hayakawa, anuncia uma mudança de foco nos negócios .

Konami

Seguindo o mesmo caminho da SEGA (Sammy Holdings), a Konami irá focar-se cada vez mais nas plataformas mobile, Hayakama aponta esta mídia como o futuro do games. Outro comentário é que a companhia também irá utilizar cada vez mais o modelo de vender menos items e mais features. De forma mascarada, isso me soa como os inúmeros jogos de celular, onde o preço de entrada é baixo ou de graça, e que para a experiência ser completa, inúmeras microtransações devem ser pagas.

Outra fato interessante é que essa mudança não parece estar sendo guiada simplesmente por uma queda de números. Analisando rapidamente a apresentação dos resultados financeiros da empresa, a divisão de games e sistemas não sofreu uma queda muito grande no seu lucro operacional. O lucro líquido da empresa saltou de ¥3,8 para ¥9,5 bilhões. A princípio a empresa não estaria tão mal das pernas quanto as notícias dariam a entender. Me parece mais uma coisa de visão corporativa mesmo. Os gamers sofrerão em decorrência disso, no entanto.

KonamiFY

Em sua mensagem corporativa no site da Konami, Hayakama menciona naquele estilo corporativo como a visão da empresa mudou (em tradução livre): “Até hoje o nosso modelo de negócios foi o de oferecer poucos meios para que os nossos consumidores interajam com os nossos jogos. Nosso método foi o de entrega-los a plataformas específicas. (…) Contudo, na indústria de hoje o termo jogo vem com um significado muito maior do que antes. (…) Não podemos mais engajar apenas em entregar nossos produtos em sistemas específicos.” O resto é blá-blá-blá.

Será que este é um prenúncio do fim da indústria AAA? Será que outras empresas vão aderir a este tipo de modelo de negócios? Quais são os rumos da nossa querida indústria?

Fica aqui a nossa homenagem a Konami de outrora que fez parte de nossa infância e hoje só teremos essa nostalgia boa em nossos corações gamers.

KonamiCODE

O que aconteceria se…

… a SEGA tivesse ganhado a guerra de consoles na década de 90? O que teria mudado para nós gamers? Seríamos gamers mais felizes? Teríamos uma indústria diferente? Ou ainda mais recheada de produtos de hardware? Realmente é difícil dizer.

SegaLOGO
Recentemente Tom Kalinske, o ex CEO da SEGA America deu uma entrevista ao site Gamesindustry. Comentando sobre o seu período lá e se ela se tornará a próxima Atari, apenas uma lembrança nostálgica.

Como CEO, ele foi responsável por modernizar e “americanizar” a empresa, fazendo-a competir com a gigante Nintendo em pé de igualdade nos EUA e Europa, perdendo apenas no Japão. E este se tornaria o principal recalque da SEGA Japão, fazendo-a tomar decisões diferentes da estratégia delineada por Kalinske. Ele viria a sair da empresa em 1996.

Nesta entrevista ele menciona que a derrocada da SEGA não era uma coisa inevitável, mas sim uma sucessão de erros que remontam há cerca de 20 anos. Ele também comenta que um dos principais motivos que o levaram a sair foi que quando houve a oportunidade de fazer uma parceria com a Sony, a SEGA Japão declinou. Ele afirma que essa foi uma das piores decisões de negócio da história. Ainda assim ele acredita que a marca SEGA ainda tem um nome forte e que pode haver esperança para o futuro.

Embora temos que dizer que as recentes notícias da SEGA não são tão inspiradoras assim, como demissões, restruturação e mudança do escritório (clica aqui).

Console Wars

Para mais detalhes de toda essa guerra de consoles no ponto de vista gamer, confira o nosso podcast! E para o ponto de vista histórico direto da visão dos competidores, vale a pena ler o livro  Console Wars (clica aqui), apenas em inglês no entanto. Ele dá muitos detalhes legais sobre toda essa confusão e ainda comenta sobre o ponto de vista da Sony e a sua entrada no mercado. Contudo, é um livro focado mais no lado da SEGA e narrado principalmente no ponto de vista do Tom Kalinske. É um pedaço de história gamer que ficou nos nossos corações.

E fica aquela pergunta, será que hoje teríamos isso?

SSmash